Com o objetivo de levantar a percepção da população brasileira sobre o quanto a pesca e o consumo dos tubarões (ou cações), ou partes deles, representam uma ameaça que está levando muitas das nossas espécies à beira da extinção, dentro do escopo da Campanha Nacional contra o Consumo de Barbatanas de Tubarão, o Projeto Tubarões no Brasil (Protuba), do Instituto Ecológico Aqualung, decidiu realizar, com a ajuda dos voluntários do Protuba, a Pesquisa Nacional de Comportamento e Percepção do Consumidor de Cação.
Além de traçar um perfil do consumidor, e de como ele vê essa questão, a própria pesquisa e sua divulgação na mídia terão a importante função de fazer com que as pessoas percebam e reflitam sobre esse grave e silencioso problema de sustentabilidade.
Nesse sentido, iniciamos os trabalhos em quatro etapas. Na 1a Etapa selecionamos um Voluntário Coordenador Nacional e na 2a
Etapa foram selecionados os Voluntários Coordenadores Regionais.
Na 3a Etapa foram convocados e selecionados os Voluntários de Campo, que aplicaram os questionários da pesquisa nos supermercados, peixarias, restaurantes e em outros locais nas cidades representativas para cada Estado. Na 4a Etapa, os voluntários de campo, após aplicar os questionários da pesquisa, reuniram os dados em relatórios e os enviaram por e-mail para seu respectivo coordenador regional. Esse, por sua vez, fez o mesmo e enviou seu relatório para o coordenador nacional.
A pesquisa teve abrangência nacional e, de acordo com seus resultados, cerca de 37% dos 1.400 entrevistados no Brasil dizem
consumir carne de cação ou tubarão (veja na página ao lado o esclarecimento sobre o uso dos termos tubarão e cação). Nesse universo, 43% dos entrevistados eram homens e 57% mulheres. No item escolaridade, 10% tinham nível primário, 41% secundário, 40% nível superior e apenas 8% tinham pós-graduação.
Os locais de aplicação da pesquisa foram as feiras-livres (9%), peixarias (11%), supermercados (37%), restaurantes (8%) e outros estabelecimentos ou locais (35%).
A pesquisa apontou uma grande diferença entre cariocas e paulistas. Enquanto apenas 6% dos cariocas afirmam consumir cação, 69% dos paulistas responderam que consomem. Quando o questionamento foi se já consumiram barbatana de tubarão, nenhum carioca respondeu sim, mas 17% dos paulistas afirmaram já ter consumido. Para a mesma pergunta sobre consumo de cápsula decartilagem de tubarão, novamente os cariocas zeraram, mas 10% dos paulistas responderam que sim. Uma explicação plausível para tal diferença talvez seja a considerável influência exercida pela população de origem oriental em São Paulo, o que não ocorre no Rio, já que são eles os grandes consumidores de cação e seus derivados, especialmente as barbatanas de tubarão para produzir a sopa.
A seguir, são descritos os resultados da aplicação dos questionários, com alguns comentários e explicações pertinentes.
Projeto Tubarões no Brasil
Resultados da pesquisa com informações e explicações de suporte
1 – Você costuma consumir carne de cação?
Cabe aqui um esclarecimento sobre o uso dos termos tubarão e cação.
As duas denominações podem ser utilizadas para qualquer espécie,
porém usualmente chamamos de tubarão as espécies de grande porte,
pouco comuns em nosso litoral, e de cação aquelas de pequeno porte,
cuja ocorrência em nossa costa é mais comum. De forma bem original,
a sabedoria popular tem outra definição a esse respeito: “se a gente
come ele, é cação, se ele come a gente, é tubarão”.
Os entrevistados que responderam SIM seguiram para a pergunta 2
(pulando a pergunta 6). Os que responderam NÃO seguiram para a
pergunta 6.
2 – Qual é a regularidade de seu consumo?
Obs: “3 a 5 x” e “1 a 2 x” referem-se à quantas vezes por semana.
3 – Em casa ou no restaurante?
4 – Se consome em casa, onde costuma comprar com
mais frequência?
5 – Já consumiu barbatana de tubarão (ou algum de
seu derivado, como sopa)?
Apesar do termo barbatana de tubarão já estar popularmente consagrado,
o nome correto é nadadeira. Na verdade, um cação de porte médio
pode fornecer cerca de 3% de nadadeira, 35% de filé, 13% de fígado
(rico em óleos, contendo as Vitaminas A e D), 9% de pele (utilizada na
confecção de artigos de couro, como as bainhas das espadas dos
samurais) e 40% de resíduos (transformados principalmente em farinha
de peixe para a ração de cães e gatos). No entanto, hoje, os tubarões
são mais perseguidos por seu fígado, sua cartilagem e, mais intensamente,
por suas nadadeiras (barbatanas).
6 – Não consome carne de cação por que?
Obs: “N Gosta” = não gosta / “N Acesso” = não tem acesso.
7 – Já consumiu ou consome Cápsula de Cartilagem
de Tubarão?
As cápsulas de cartilagem de tubarão são apregoadas como antitumorais
em uma gritante e falsa analogia à tese de o tubarão ser imune ao
câncer. São afirmações oportunistas e sem nenhuma comprovação
científica. A cartilagem do tubarão, assim como a do boi, realmente
contém pequena quantidade de uma substância que “in vitro” inibe o
crescimento de vasos sangüíneos __ os tumores dependem
fundamentalmente de um rápido crescimento dos vasos sangüíneos
para alimentar suas células e assim se expandir. No entanto, essa
substância está comprovadamente restrita à cartilagem e não escapa
para o resto do corpo do tubarão. Para extrair pequenas quantidades
dessa substância é preciso utilizar enormes volumes de cartilagem que
são impregnados por semanas em fortes preparados químicos. Ainda
assim, há sempre quem esteja disposto a investir e lucrar com isso. Para
se ter uma idéia de como os tubarões vêm sendo massacrados para
atender às nossas “fúteis demandas”, uma simples fábrica na Costa Rica
transforma, todo mês, 235 mil tubarões em cápsulas de cartilagem.
8 – Você sabia que a pesca descontrolada e excessiva
está acabando com as populações de tubarões?
A baixa reprodutividade dos tubarões os torna vulneráveis à sobrepesca.
Enquanto algumas espécies de peixes conseguem reproduzir-se
rapidamente, renovando e recuperando seus estoques naturais, boa parte
das espécies de tubarões leva de 10 a 15 anos para atingir sua maturidade
sexual, reproduz-se uma vez a cada dois anos, costuma ter longos
períodos de gestação e a taxa de mortalidade infantil pode ultrapassar
50%. Desta forma, as populações de tubarões têm uma taxa anual de
reposição de apenas 3 a 4%, muito pouco para recuperar as perdas
sofridas pela pesca excessiva. Nas duas últimas décadas, as populações
de algumas espécies pescadas em todos os oceanos já foram reduzidas
em até 89%, beirando o colapso. Estudos recentes apontam que as
populações de oito espécies de tubarões que habitam a região noroeste
do Oceano Atlântico tiveram um declínio de mais de 50% nos últimos
15 anos. As reduções mais significativas ocorreram nas populações de
tubarão-martelo, com 89% de declínio, nas do tubarão-branco, com
79%, e nas populações de tintureira, com 65%.
9 – Você sabia que pesca para obtenção das
barbatanas está levando diversas espécies de
tubarão à beira da extinção?
A pesca para obtenção das barbatanas de tubarão é uma ação predatória
progressiva, constante e silenciosa. É insustentável e ameaça a
sobrevivência dos tubarões. As Nações Unidas estimam algo em torno
de 100 milhões de tubarões capturados e mortos anualmente em todos
os mares. Desses, cerca de 70%, ou 70 milhões de tubarões, são mortos
só pra virar sopa de barbatana. Atualmente, cerca de 120 nações estão
envolvidas nas atividades pesqueiras do tubarão, incluíndo o Brasil. Esse
consumo insustentável dos tubarões (ou cações), ou partes deles, como
as nadadeiras (ou barbatanas) e a cartilagem, representa uma ameaça
que está levando muitas populações de tubarões ao declínio vertiginoso.
Das 88 espécies de tubarões ocorrentes no litoral brasileiro, 38 espécies
estão nas listas de espécies ameaçadas de extinção. Ou seja, já são 43%
de espécies ameaçadas. Isso nos dá a exata dimensão do problema que
estamos enfrentando.
10 – Você tem alguma noção de como é feita essa
pesca?
Navios de pesca costumam ser flagrados praticando uma das mais
absurdas, cruéis e perturbadoras perseguições realizadas pelo ser humano;
a pesca para a retirada de barbatanas. Em um breve intervalo de tempo,
capturam o tubarão, cortam fora suas nadadeiras e atiram sua carcaça
de volta ao mar. Muitas vezes vivo, mas mortalmente aleijado, afunda
para morrer sangrando, comido por outros peixes ou para apodrecer no
leito do mar. Mesmo que essas nadadeiras fossem diretamente para o
prato de crianças famintas, seria um total despropósito. Mas não é
exatamente para isso que são ceifadas. As nadadeiras atenderão a um
ávido e lucrativo mercado. A indústria pesqueira obtém em torno de
US$ 50.00 por quilo de nadadeira seca, contra US$ 1.00 por quilo da
carne de tubarão. Nos mercados asiáticos, onde o quilo pode atingir
US$ 120.00, a nadadeira é usada no preparo da “sopa de barbatana de
tubarão”, uma iguaria gelatinosa que é vendida nos restaurantes finos
de Hong Kong por até US$ 150.00 o prato, tido como afrodisíaco.
11 - Você sabe dizer qual é a importância dos tubarões
para o equilíbrio da vida nos oceanos?
Os tubarões exercem duas funções primordiais na manutenção do
equilíbrio e da saúde da vida nos oceanos. Primeiro, como predadores
situados no topo da cadeia alimentar, o equivalente oceânico aos leões
africanos e tigres asiáticos, os tubarões asseguram um tipo de ordem
nos oceanos. Mantêm o controle populacional de suas presas habituais
e exercem importante papel na seleção natural ao predar os mais lentos
e os mais fracos. Segundo, ao comerem os animais e peixes doentes,
feridos ou mortos, os tubarões exercem também uma função importante
na manutenção da saúde dos oceanos. Para entender melhor o que isso
significa basta ver a semelhante função do urubu no ambiente terrestre.
Os urubus, assim como os grandes carniceiros, consomem um cadáver
em questão de minutos. Se acabarmos com esses animais, as carniças
passariam a ser consumidas por insetos, bactérias e micróbios, que
levariam dias ou semanas nesse intento, e o nível de microorganismos
no ar que respiramos seria insuportável ou até mesmo insalubre. No
ambiente marinho ocorreria o mesmo.
12 – Você sabe dizer quais seriam as conseqüências
diretas da extinção dos tubarões?
Sem esses guardiões dos mares, teremos um ambiente marinho doente
e frágil e muito mais suscetível aos outros problemas, como o
aquecimento global e a acidificação das águas. Além disso, a extinção
dos tubarões certamente provocará uma forte alteração na complicada
teia alimentar dos mares e o consequente desequilíbrio do ecossistema
marinho. Um exemplo hipotético, com o tubarão-branco, pode ilustrar
muito bem a influência que pode ter a perda de um elo da cadeia
alimentar. A extinção do tubarão-branco levaria a um descontrole
populacional de focas e leões-marinhos, suas presas favoritas. O aumento
das populações de focas e leões-marinhos elevaria enormemente o
consumo de peixes. Com estoques menores de peixes, não só as
populações humanas sofreriam, inclusive economicamente, como
também a reação em cadeia poderia chegar às algas planctônicas, maiores
produtores de oxigênio do planeta, e os desequilíbrios decorrentes seriam
imprevisíveis e catastróficos.
13 - Diante dessa realidade, você admite a
possibilidade de rever seus conceitos e consumo?
14 - Admite a possibilidade de disseminar essas
informações para as pessoas de sua relação?
Escolaridade do Entrevistado