Quando nos parece que a consciência ambiental da população em geral está melhorando, recebemos a triste notícia de que matadores de aluguel estão sendo contratados na Amazônia para caçar e matar botos-cor-de-rosa com o objetivo explícito de prover o comércio ilegal da carne, usada como isca para a pesca do piracatinga (espécie de bagre muito consumido na Colômbia), dos olhos, para amuletos, e dos órgãos reprodutivos, para produtos afrodisíacos.
No artigo “Dia Internacional da Biodiversidade”, divulgado no início do mês, falei sobre a ultrapassada e absurda crendice popular, comum no Oriente, de achar que partes de animais, como o chifre do rinoceronte, o pênis do tigre, as patas de ursos ou as barbatanas dos tubarões, perseguidos e caçados com esse objetivo, têm propriedades afrodisíacas ou medicinais. Pois é, esqueci de incluir os olhos e os pênis dos botos-cor-de-rosa usados em crendices populares pelos ribeirinhos brasileiros do Ocidente.
Liguei há pouco para minha esposa e contei o fato. Sua reação, como a de todos seria, foi dizer em tom incrédulo: que absurdo! Coitadinhos! E é verdade, mas se fossem (como são) os tubarões, sua reação, e da maioria, provavelmente não incluiria o “coitadinho”.
Muitos me vêem como um fervoroso defensor dos tubarões, alcunha que não me esquivo, mas esses “mesmos muitos” não percebem que essa luta vai além dos tubarões. Ela inclui e envolve a defesa e a preservação de todos os outros animais e ecossistemas marinhos e inclui e envolve a defesa e a preservação de toda vida no nosso Planeta.
Precisamos levantar a bandeira contra a cruel perseguição de espécies animais para a extração de partes de seu corpo para obtenção de produtos supérfluos e inócuos. Seus benefícios apregoados não têm nenhuma base científica comprovada. Mesmo que tivessem, não se justificaria tamanha crueldade e ignorância.
E essa bandeira deve incluir TODO E QUALQUER ANIMAL PERSEGUIDO, por menos fofinho ou simpático que seja aos olhos da maioria.
Sobre o Autor:
*Marcelo Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor dos livros GUIA AQUALUNG DE PEIXES, AQUALUNG GUIDE TO FISHES, SERES MARINHOS PERIGOSOS, PEIXES MARINHOS DO BRASIL, e TUBARÕES NO BRASIL, e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA) e membro da Comissão Científica Nacional (COCIEN) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).